Beleza

Todas as belezas devem ser celebradas

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A seleção de livros de moda mais vendidos em 2016 na Livraria Saraiva trouxe, além de figurinhas carimbadas, como Costanza Pascolato e a francesa Inés de la Fressange, um tema em comum entre duas autoras. Elas falam para outras mulheres, que em algum momento da vida ouviram discursos do tipo “cabelo bom é cabelo liso”, “liso é mais elegante”, “crespo é ruim” e por aí vai. Uma dessas autoras é Lorraine Massey, do Reino Unido, criadora do best-seller O Manual da Garota Cacheada: O método Curly Girl. A outra é a brasileira Sabrinah Giampá, 37 anos, que lançou no fim do ano passado o Livro dos Cachos, editado pela Companhia das Letras. Sabrinah viveu na pele as consequências da ditadura do liso. Aos 30 anos e depois de muitas sessões de alisamento, ela já não se reconhecia no reflexo do espelho. A jornalista resolveu assumir os fios naturais, falar sobre o assunto em um blog e montar um salão na garagem de casa. “São sete anos de amor-próprio”, resume a experiência. Ela conta essa história em entrevista para Ludovica.
 
Por que o movimento que incentiva mulheres a assumir seus cabelos naturais está ganhando força?
 
A gente está entrando na era da democratização da beleza. Nós, mulheres, além de estarmos nos libertando com ajuda do feminismo, também estamos deixando de lado os padrões de beleza enraizados. A cultura do longo e liso é muito forte, atrelada ao machismo e ao racismo. Levar uma nova mensagem tem tudo a ver com essa era.
 
Então, é mais do que beleza?
 
Na minha opinião, é muito mais comportamental do que beleza. A questão do estético é bem mais superficial do que a mudança que aceitar o cabelo natural faz na vida. Você está aceitando sua origem, raça, essência, fazendo as pazes consigo mesma. É maravilhoso gostar de você como é. Quando você se aceita, se ama e se empodera, conquista tudo. Isso é muito importante para as mulheres.
 
Essa questão começa na infância?
 
Desde criança fui educada para acreditar que meu cabelo era um defeito. Em diversos momentos da vida, me senti inadequada. Minha própria mãe, que tem o cabelo cacheado, sempre o usou liso e me passou isso como sendo o adequado. Eu via o cabelo cacheado como uma fera a ser domada. É uma falsa aceitação, na qual você só se enxerga bonita se o cabelo estiver liso.
 
Quando aconteceu a mudança?

 
Só com 30 anos me libertei, me aceitei e vi além dos padrões de beleza. Um dia me olhei no espelho e não me reconheci mais. Com tantos anos de alisamento, me senti uma pobre camponesa de nobre coração. Percebi que não precisava passar por alisamentos agressivos, dos quais eu não sabia quais seriam os danos a longo prazo. Pensei: ‘Tenho personalidade tão forte e vou ficar com essa cara de coitadinha? Mas se parar de fazer alisamento, o que vai acontecer?’ Comecei a pesquisar, descobri o livro da Lorraine e todo um universo que eu desconhecia. Passei a fazer testes e me usar como cobaia. As pessoas começaram a se interessar e daí veio o blog [www.cachosefatos.com.br]. Também fiz cursos e me tornei cabeleireira quando vi a carência de profissionais que sabiam diferenciar as necessidades do cacho e do liso. Descobri depois que nem as escolas de cabeleireiro têm boneca crespa. Abri um salão na minha garagem para ajudar as mulheres de uma forma mais prática.
 
E como fazer a transição do cabelo alisado para o natural?
 
A gente vive em uma cultura machista, na qual se associa comprimento do cabelo a feminilidade. Se você perde o cabelão, a feminilidade e sensualidade vão junto. Mas não é assim! Informação é tudo. Temos que entender que é algo cultural e, para quem vai passar por essa transição, é tentar desapegar do cabelo. Quanto mais ele cresce, mais ficam marcadas as duas texturas. Daí vale a pena fazer penteado e cortar aos pouquinhos se você não quer fazer de uma vez. Não tem jeito: química só sai na tesoura.
 
Dentre as histórias de mulheres cacheadas que você ouviu, alguma te marcou?
 
Ah, tem várias! Lembro de uma menina que veio à garagem, logo quando eu comecei, e chegou toda encolhida. Ela tinha 17 ou 18 anos e não sabia como era o próprio cabelo natural porque desde os três anos a mãe o alisava. Ela ouvia que o cabelo era ruim... Depois descobriu que tem um crespo lindo. Ela se via no espelho, o olho brilhando, e dizia: ‘Então meu cabelo não era horroroso?’. Isso mudou a autoestima dela.
 
Como é a influência das mães nesse processo?
 
Percebo que muitas mães que estão se aceitando ajudam a empoderar essas crianças. Tenho uma cliente com uma filha de seis anos. A mãe alisava o cabelo e o sonho da menina era ficar do mesmo jeito. Só que a mãe decidiu passar a máquina no três para tirar toda a química e assumir os cachos. A filha passou a usar o cabelo solto para ir à escola e a própria mãe percebeu o bem que estava fazendo para a menina com essa transformação. A professora é outra referência muito forte. Muitas estão se assumindo. A criança que ia para a escola escovada, de chapinha, agora vê uma nova referência. Mulheres empoderadas têm filhas empoderadas.
 
Mesmo com os avanços do movimento, o racismo ainda é um problema a ser encarado?
 
Sim, até hoje. A mulher vai a uma entrevista de emprego e não passa porque o cabelo não é “apropriado”, ou seja, não é “profissional”. É tão absurdo, tão racista, que não tem como descrever. É a mesma coisa de ouvir que você, de olhos castanhos, só vai ser contratada se usar lente de contato azul. É um racismo tão enraizado e ao mesmo tão velado, que as pessoas acreditam ser normal.
 
Há mulheres que questionam o movimento por sentirem obrigação de assumir os cachos, enquanto se sentem melhor com o cabelo liso. Qual é a sua dica para elas?
 
A ideia é que o alisamento não seja uma obrigação, e sim uma opção. Se eu sou cacheada, mas gosto do cabelo liso, vou usar liso. Não quero colocar uma arma na cabeça da mulher e dizer que ela tem que usar o cabelo cacheado. Só estou mostrando que é possível usar o cabelo natural. É uma opção e cada um segue a sua. Todas as belezas devem ser celebradas: lisa, natural, careca... Isso é democratização. 
 
Como cuidar dos cachos
 

Para Sabrinah Giampá, que se especializou no atendimento a mulheres que têm cabelo crespo e cacheado, o tipo de produto também pode facilitar o cuidado com os fios. “Escolha pela composição e não pelo marketing”, orienta. A cabeleireira prefere marcas orgânicas e veganas. “Elas não usam ingredientes sintéticos, que deixam o cacho ressecado. Só de tirar os derivados de petróleo, você já ganha outro cabelo”, garante.

Ouça também o aúdio com a entrevista:

Daniel Zago
A brasileira Sabrinah Giampá, autora do Livro dos Cachos, viveu na pele as consequências da ditadura do liso
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