Comportamento

Amor e luta

Krika Fotos
Thaís Costa Gomes da Silva e Raquel Gabriela Felisberto


A maioria das histórias de amor começa do mesmo jeito. Alguém conhece alguém, se envolve e se apaixona. Depois vem a vontade de ter um cantinho para dividir a vida, as contas e construir um futuro ao lado daquela pessoa. Mas é fato que nem toda história de amor tem o mesmo roteiro. Algumas são romances comuns, desses até meio piegas. Outras parecem com aqueles contos de fadas – ou novelas – cheios de obstáculos e reviravoltas de dar frio na barriga. De uma maneira ou de outra, todas valem a pena quando o amor prevalece sobre os feitiços da bruxa má e alcança o tão sonhado “e foram felizes para sempre”.
 
O interesse pelos contos do mundo Disney e a paixão pelas artes cênicas foram dois dos motivos que uniram as atrizes Thaís Costa Gomes da Silva, 33, e Raquel Gabriela Felisberto, 26. Formadas em produção cênica, as duas se conheceram em um momento delicado, quando um amigo em comum foi tirado do convívio social porque a família descobriu que ele era homossexual. Buscando por notícias, elas se conheceram e logo surgiu a amizade e a afinidade de interesses. Aproximadamente um ano depois o namoro começou, em agosto de 2010.
 
Juntas há quase nove anos e casadas há quatro meses, além de dividirem as tarefas e as contas da casa, elas são sócias em uma empresa de “personagens vivos” para festas em Goiânia. Somam-se à família três gatos e uma afilhada, agora com 19 anos, que mora com elas desde os 17, quando veio de Campo Grande (MS) para a capital goiana por amor à dança. Mas nem sempre tudo foi simples. Muitos dragões foram derrotados ao longo dessa narrativa.

Descoberta
 

Para Thais, o processo de autodescoberta e aceitação veio quando ela estava para completar 18 anos e foi um momento muito delicado e difícil, mesmo convivendo com amigos gays. “Quando foi comigo foi mais difícil. Tinha acabado de concluir o ensino médio e me assustei na época porque, para mim, era algo que nunca imaginava”, conta. Filha única de pais separados desde quando tinha 5 anos, Raquel não contou de cara para a mãe que, quando começou a desconfiar, logo descobriu sobre o namoro com Thais.
 
De família bastante tradicional, a mãe de Raquel não soube aceitar a sexualidade da filha e, ainda hoje, a moça sofre preconceito por parte da família materna. “Não houve enfrentamento. Quando percebi que isso não seria aceito dentro da casa da minha mãe eu me retirei porque sabia que não ia mudar, que não era uma fase. Isso é o que eu sou”, pontua.
 
O pai, músico, sempre esteve mais distante, mas encarou com mais sensibilidade. “Embora eu saiba que não foi fácil para ele, e não é, acredito, ele lidou de maneira acolhedora, sempre me mostrando que estava ali pronto para aprender com a situação”, diz a atriz que, em 2010, saiu da casa da mãe e foi morar com o pai.
 
No caso de Thais, o processo também não foi tão simples. Levou um tempo para ela conseguir digerir o turbilhão de emoções, mas não foi algo que fez mal em algum momento, segundo ela mesma. Aos 18 anos, trabalhando com teatro, tinha muitos amigos gays assumidos, mas dedicava pouca atenção aos seus próprios relacionamentos. “Sempre fui muito mais preocupada com qualquer outra coisa de que com namoros”, lembra.
 
Com os pais casados há muitos anos e um irmão mais novo, Thais vê na mãe uma figura de força e enorme determinação pelo histórico familiar. “Meu pai também é de família grande, a criação dele foi mais rural".
 
Depois de um bom tempo da descoberta interior, Thais decidiu contar para a mãe através de uma carta porque não tinha coragem de falar e já se sentia sufocada por não contar nada sobre sua vida pessoal. “Aquilo me incomodava, ela não podia participar da minha vida, sabia apenas sobre o que acontecia na parte profissional. Entreguei a carta e saí. Logo depois ela me ligou e disse que estava tranquila, que no fundo ela já sabia e que estava tudo bem”, recorda.
 
Porém, quando a jovem começou a se expressar nas redes sociais, a mãe passou a ficar na defensiva, com medo de que alguma coisa ruim pudesse acontecer, com receio da exposição. “Pouco a pouco eu fui mostrando para ela que estava tudo bem. O resto da família foi descobrindo pelas minhas postagens, pelas minhas atitudes. No começo, meu irmão me afrontava, brigava comigo sem motivo, mas hoje ele é muito tranquilo, me respeita e até já me defendeu de ofensas de familiares. Tudo foi se acalmando”.
 
Vida a duas
 
Em 2013, já buscando independência e planejando começar uma família, as duas decidiram morar juntas em uma quitinete no setor Universitário para facilitar os deslocamentos para o trabalho e estudos. Com a cara e a coragem, sem renda fixa e vivendo de trabalhos como freelancer no teatro e em uma empresa de animação infantil, Raquel deixou a casa do pai e Thais também saiu de casa. A mudança deu pouco trabalho, pois tudo o que tinham para mobiliar o novo lar era um colchão de solteiro, alguns copos e talheres.
 
“Como estava bem difícil para nós duas, resolvemos encarar isso juntas. Foi complicado, contamos com a ajuda de muita gente. Minha mãe me deu o microondas da casa dela, o avô da Raquel arrumou para nós um fogão velho e fomos adquirindo as coisas aos poucos, com o apoio de amigos e familiares mais próximos”, conta Thais. Fogão e geladeira novos, por exemplo, só chegaram algum tempo depois.
 
Após cerca de um ano, a empresa na qual trabalhavam estava para fechar, mas o casal já tinha planos de trazer para Goiânia personagens diferenciados com o conceito de “personagens vivos”. Mais uma vez, arregaçaram as mangas e foram buscar referências no mercado, inclusive fora da capital goiana. Batalharam e se tornaram importantes profissionais do segmento.
 
A mãe de Thais chegou a fazer um empréstimo para ajudar no início da empresa. Ainda assim, os desafios eram enormes e elas precisaram se esforçar. “Foram mais de 300 festas num ano, às vezes mais de uma por dia. Apesar do sufoco, conseguimos cumprir nossos compromissos, pagar o empréstimo. A empresa tem 5 anos e funciona em home office, dentro do nosso apartamento. Continuamos morando de aluguel, dividimos as tarefas, mas já conseguimos organizar um pouco nossa casa e manter nossas despesas”, afirma Thais.
 
Preconceito
 
Apesar de todas as situações de preconceito, inclusive dentro da família, Thais e Raquel se consideram privilegiadas diante do cenário previsível para quem se assume homossexual no Brasil. “Mesmo não tendo tido total aceitação na minha família, ainda ocupamos um lugar confortável. Nunca sofremos agressão dentro de casa, não fui expulsa e jamais humilhada pela minha família”, diz Thais. Também, por atuarem no meio artístico, elas acreditam que exista uma tolerância maior, como a liberdade de poder assumir o relacionamento sem precisar esconder de chefe, algo que, infelizmente, ainda é muito comum. “Conhecemos gente que perdeu o emprego ao se assumir como homossexual e que durante a demissão ainda ouviu um sonoro “se você não fosse desse jeito seria muito mais fácil te manter aqui.”
 
De acordo com o casal, “viver na bolha” tem o lado bom e o ruim. Ao mesmo tempo em que convivem com amigos heterossexuais, gays, casais com religião, ateus, com filhos ou sem filhos, elas sabem que nem todo mundo tem a mesma sorte. “A realidade dói e temos, cada vez mais, conseguido sentir e perceber a dor do outro. Porque, além de casal gay, somos mulheres e artistas e nós sabemos onde essa dor aperta, sabemos quantas feridas ainda existem para ser curadas e quantas cicatrizes a gente carrega”, desabafa Thais.
 
Falta do convívio familiar
 
De todos os preconceitos, para Raquel, o que dói mais é não ser aceito dentro da própria família, pois é muito mais doloroso sofrer preconceito daquelas pessoas que deveriam acolher e amar do que de desconhecidos. “Em uma parte da minha família nós não somos bem-vindas e isso já trouxe episódios muito desagradáveis. Não pudemos dividir um momento importante, como o nosso casamento, por exemplo, entre outras situações que eu lamento”.
 
“Sem dúvida, o preconceito dentro da família piora muito, dói mais. Então, para algumas datas como o Natal ou aniversário de alguém próximo, nós criamos nossas próprias tradições, já que existem momentos nas nossas famílias em que não podemos estar juntas. E assim somos completas”, concorda o casal.
 
Casamento e maternidade
 
O sonho de realizar uma cerimônia de casamento continua sendo um objetivo do casal, já que ambas são católicas. No dia 3 de janeiro último, elas realizaram o casamento civil com direito a bolo, fotos e maquiagem.
 
Também no topo da lista de desejos em comum está a maternidade. Aumentar a família tem sido um assunto muito comentado e pesquisado. O método ainda não foi definido, mas uma das opções seria a inseminação in vitro. Porém, a adoção não foi descartada e, na verdade, nem precisaria, já que o plano é ter mais de um bebê.
 
“Temos tido contato com muitas grávidas nesses últimos anos, inclusive alguns casais de mulheres que ousam enfrentar a maternidade lésbica. É algo que nós temos pesquisado e descoberto não apenas como uma possibilidade, mas uma realidade. O processo de poder colocar um ser humano nesse mundo doido em que a gente vive hoje e educar essa vida tem nos encantado cada vez mais”, afirma Raquel, acrescentando que, ao contrário de muitos casais que repensam ter filhos por receio de situações externas como violência e dificuldades financeiras, as duas veem com otimismo a possibilidade de colocar uma sementinha de esperança no mundo.
 
“Não que sejamos perfeitas, porque ninguém é, mas acho que o mundo precisa de filhos de pessoas que acreditam no amor, não só no dinheiro ou na força acima de tudo, no egoísmo ou na divisão. A gente precisa de pessoas que acreditem nas coisas sendo repartidas. Nosso desejo de maternidade acaba sendo também um desejo por um mundo mais justo e mais amável, pois é algo que a gente acredita e vive intensamente”, planejam as futuras mamães.
 
A sensação de pertencimento e aceitação junto ao círculo de amigos transformou o relacionamento em uma base sólida dentro do conceito de família. Amigos e familiares próximos compõem um porto seguro de amor e confiança. Para elas, o desejo da maternidade se intensifica como a celebração de suas tradições particulares que já planejam passar para os filhos. “A gente já acredita e preserva nossa família, acreditamos muito em Deus, mas no Deus que acolhe e não que condena. Queremos ser mães incríveis, cheias de defeitos e cheias de dúvidas, mas com muita vontade de ser e aprender”, finaliza Raquel.

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