Comportamento

Como aceitar com naturalidade o processo de envelhecimento

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Para entender por que muitas pessoas têm medo de envelhecer é preciso contextualizar o papel do idoso na cultura de seu povo e responder a seguinte pergunta com total sinceridade: qual posição a velhice ocupa na cultura da qual faço parte? Tratando-se de Brasil, podemos diagnosticar características como culto ao corpo perfeito, juventude vista como a fase áurea e o senso de resultados rápidos no ambiente profissional.
 
Essa reflexão e tantas outras que faremos aqui foram conduzidas pela psicóloga e psicanalista Márcia Marques Lopes de Oliveira, estudiosa da psique humana. Para nos mostrar o impacto negativo que o envelhecimento gera nas pessoas, a profissional nos convidou a levantar uma série de questionamentos pertinentes, que perpassam a visão singular que temos da vida, e nos inserem em um contexto no qual não somos educados a cultuar e respeitar as alterações biológicas que chegam com o passar dos anos. Uma sociedade que celebra a juventude confere ao idoso um símbolo de decadência. É exatamente devido a essa percepção, tão presente na cultura do brasileiro, que brotam as mais diversas aversões ao processo natural de envelhecimento.
 
Para onde estou indo?

 
O medo de envelhecer não é consciente. É o resultado da relutância em refletir sobre esse aspecto inevitável da vida. Afinal, a cada dia vivido nos tornamos mais velhos, não é mesmo? As pessoas pensam em tudo: necessidade de manter e prolongar a saúde, criar uma reserva financeira para o futuro, ascender no trabalho. Mas muita gente não se pergunta sobre como vai lidar com as dificuldades impostas pela velhice, como a perda de memória, a falta de paciência mais acentuada e o cansaço que se mostra cada dia, mesmo diante de atividades corriqueiras.
 
Conforme alerta Márcia de Oliveira, se sabemos que vamos envelhecer, por que não nos preparamos para lidar com todo esse processo como algo natural e perfeitamente aceitável? A resposta é mais simples do que imaginamos: porque negamos a velhice. “Vivemos como se esse dia não fosse chegar e não nos preparamos para o inevitável”, define a psicóloga.
 
O que está acontecendo comigo?
 
De acordo com a especialista, a imagem que trazemos internalizada de nós mesmos foi construída na adolescência. “Temos um registro forte dessa imagem, dessa fase da vida, internalizado inconscientemente”, explica. Portanto, os efeitos causados pelo avançar dos anos não são assimilados tão rotineiramente, com um simples olhar no espelho. Essa realidade vem se manifestar, por exemplo, quando vemos nossa imagem reproduzida em uma fotografia ou quando nos deparamos com pessoas que não vemos há tempos e enxergamos claramente nelas o efeito da idade se manifestando. “É nesses momentos que conseguimos enxergar o quanto a idade também passou para nós”, argumenta Márcia.
 
Há um certo incômodo em detectarmos as mudanças físicas pelas quais passamos. Não existe idade específica, mas a partir dos 40 anos os estranhamentos vão se tornando mais frequentes. Esse deveria ser um sinal saudável para que passássemos a pensar na vida que queremos ter nas próximas décadas, nos fazendo as seguintes perguntas, sem medo: como quero ser aos 50, 60... 80 anos?
 
Por que tenho medo de envelhecer?
 
A psicanalista explica que o medo de envelhecer não é algo que se assume conscientemente, afinal, somos marcados por medos dos quais desconhecemos as origens. Muitas pessoas não vão manifestar esse medo, recorrendo a cirurgias plásticas, modificando seus corpos ou deixando de interagir com idosos ao seu redor. O receio pode se exteriorizar em forma de entristecimento, isolamento ou com a falta de estímulo para participar socialmente de reuniões familiares e com amigos.
 
Fique atenta a esses sinais e se eles estão se manifestando em você ou mesmo em pessoas próximas. Ter consciência do que sentimos é o primeiro passo para transformarmos sentimentos ruins em lições de vida e superação.
 
A fase da reflexão

 
Com o passar dos anos, somos provocados por questionamentos fundamentais que não nos fazemos na juventude. “O processo de envelhecer nos põe diante do verdadeiro sentido da vida, daquilo que construímos e do que deixaremos de legado”, ressalta a psicóloga. É nessa fase que refletimos sobre o sentido de nossas conquistas e o resultado de nossas escolhas. “Logo, estamos diante de um sujeito que, além de se angustiar com as alterações físicas, ainda está em plena elaboração de todo um processo de vida. À medida que envelhecemos, acabamos nos fazendo perguntas que ajudam a entender a trajetória que construímos”, diz.
 
Ou seja, trata-se de uma fase riquíssima de tantas formas, pois é a partir dos balanços e contrabalanços que conseguimos entender quem somos e o que valorizamos. E é nessa fase também que nos reposicionamos e percebemos como coisas que antes tinham um peso maior hoje parecem irrelevantes.
 
Um culto ao envelhecimento
 
É fundamental ao idoso ter seu lugar garantido na sociedade, com o devido papel que lhe cabe, que é o de ser mais experiente entre os demais. Nesse contexto, as crianças conseguem inserir o idoso mais naturalmente no convívio familiar, pois têm habilidade e tempo para ouvir as histórias e ensinamentos.
 
Toda pessoa precisa estar projetada em uma rede de proteção social, conviver com os demais para exercer a troca de ideias, se sentir útil, ouvida, compreendida, amada. Cabe à sociedade entender isso com normalidade e trazer o idoso para o centro do convívio social, respeitando as suas particularidades. Afinal, se a vida permitir, esse lugar será ocupado por todos nós em um futuro não tão distante.

 

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