Comportamento

Janeiro Branco: plena mente

Shutterstock


As viradas de ano têm dessas coisas: criam o clima de “agora vai” e incentivam a maioria das pessoas a pensar na vida, avaliar conquistas, cogitar mudanças e estabelecer metas. Planejar-se é um exercício de autoconhecimento, assim como encarar as frustrações com aquilo que não foi realizado. Então, aproveitando esse momento, a campanha Janeiro Branco procura divulgar os conceitos de saúde mental e emocional que compõem um estado de equilíbrio (individual e coletivo) para uma vida satisfatória em sociedade.

Ao contrário do que muitos pensam, a saúde mental não é apenas a ausência de doenças mentais, mas um conjunto de fatores que permite ao indivíduo viver com plenitude e encarar com resiliência as dificuldades da vida. Uma mente saudável reconhece seus pontos fortes e fracos, desfruta de convívio social, tem motivações e sonhos. Para alcançar isso é necessário se conhecer, refletir sobre propósitos, relacionamentos, trabalho e emoções. Aprofundar-se em si mesmo é um desafio que exige paciência, carinho e dedicação, mas a recompensa vem com o ganho de qualidade de vida e ao encontrar a felicidade na rotina.

Gerenciando emoções

Ainda há quem pense que a psicoterapia e o tratamento psicológico são para “doidos”. Uma ideia preconceituosa e ultrapassada, pois muita gente ainda é assombrada pelo medo do julgamento, e questões simples da vida acabam se acumulando, causando sofrimento e dor emocional.

Para a psicóloga Djecica Koepsel Solera, o lado positivo é que, cada dia mais, as pessoas enxergam o potencial do psicólogo em auxiliar as pessoas de diversas maneiras, fases e idades da vida, sem que necessariamente exista uma doença a ser tratada. Nos consultórios, por exemplo, a psicologia ajuda em conflitos familiares, dilemas profissionais, distúrbios de aprendizagem e de comportamentos, estresse e outros sintomas.

A psicóloga Tatisa Furtado explica, ainda, que a psicoterapia é um importante processo de autoconhecimento que ajuda o indivíduo a desenvolver um novo olhar sobre si mesmo e suas relações, gerando habilidades para ressignificar experiências traumáticas, desenvolver recursos de enfrentamento de situações de crise e capacidade eficiente de gerenciar suas próprias emoções e os seus efeitos na vida emocional.

Olhando para si

Foi buscando essa ressignificação que a fisioterapeuta Jéssika Campos procurou orientação profissional. Aos 29 anos, ela tinha uma rotina de trabalho totalmente acelerada, repleta de atendimentos, compromissos, cursos aos finais de semana e pouco tempo para o descanso. A energia que sobrava era totalmente dedicada à família e ao relacionamento. Morando em Anápolis e atendendo em Goiânia, os deslocamentos tomavam ainda mais tempo da profissional, formada há sete anos. Em algumas épocas, Jéssika chegava a trabalhar de 12 a 15 horas diariamente.

“Já tive problemas de saúde com essa rotina acelerada, mas sempre me esforçava para manter o foco porque sou apaixonada por pessoas e por cuidar delas. Sempre achei importante o autoconhecimento, aconselhava todos à minha volta a buscar terapia, mas eu mesma nunca ia. Colocava outras prioridades profissionais à frente até que um problema pessoal me deixou sem forças para trabalhar. Foi quando resolvi procurar ajuda. E esse passo não é fácil, mas depois você descobre que é libertador”, conta a fisioterapeuta.

Descobrir crenças limitantes, cobranças exageradas e medos desconhecidos que exerciam influência negativa sobre a vida de Jéssika a ajudou a ter clareza em algumas decisões. “É um caminho maravilhoso você se vasculhar e entender tantas coisas. Eu sou uma pessoa muito calma, mas carregava preocupações em excesso que não precisavam andar comigo. Sempre pensei muito nos outros e isso influenciava minhas decisões a ponto de não conseguir dizer não para ninguém, me atolando em um monte de obrigações e assumindo responsabilidades que não eram minhas”, avalia.

Depoimento

“Descobri que podemos ir muito além do que imaginamos quando enfrentamos nossos medos e saímos da zona de conforto. E não precisamos fazer algo sobre coisas que não dependem de nós porque isso pode trazer muito sofrimento desnecessário. Hoje eu consigo enfrentar desafios muito maiores, administrar melhor o meu tempo de acordo com minhas prioridades e tomar decisões mais conscientes. Minha rotina ainda é acelerada, porém, muito mais leve. Tenho tempo para mim sem me sentir culpada e me dedico a algumas coisas que sempre quis, mas deixava em segundo plano. É certo que vivemos em processo de crescimento, descobertas e amadurecimento o tempo todo, mas quando temos essa ajuda para nos guiar pelo caminho do autoconhecimento, vivemos tudo com mais plenitude”.
(Jéssika Campos, fisioterapeuta)

Viva o que é real

É possível dizer que ultimamente as redes sociais têm potencializado a comparação e a competitividade entre indivíduos porque mostram pessoas felizes com vidas perfeitas, corpos impecáveis, relacionamentos de contos de fadas, trabalho em dia, filhos bem-criados. Mas a psicóloga Tatisa Furtado faz um alerta importante: a comparação é um dos fatores mais eficazes na destruição da autoestima.

“Atendo muita gente com problemas seríssimos de baixa autoestima, e a pessoa assim perde seu escudo emocional. Então ela está sempre inclinada de maneira muito prejudicial a encontrar o pior em si e o melhor nos outros. Isso afeta a vida do indivíduo em todos os aspectos e gera padrões de comportamentos adoecidos”, explica a especialista.

Djecica Solera concorda que vivemos um período em que queremos e acreditamos que podemos ter tudo e então seremos plenamente felizes. “Mas a realidade não condiz com as fotos e os vídeos, e cada escolha é uma renúncia. Meu papel é entender o que o paciente busca ao tentar alcançar essa imagem e, assim, ajudá-lo a compreender o que de fato é importante para ele. À medida em que o paciente fica seguro de quem ele é e do que quer ser, essa busca cessa. Ele passa a estar mais focado naquilo que realmente importa e o faz feliz, independentemente do que o senso comum ou a sociedade impõem como correto”, conclui a psicóloga.

Saúde mental e emocional no Brasil

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, o Brasil passa por um crescimento vertiginoso de problemas relativos à saúde mental e emocional dos indivíduos. Dados de 2017 da OMS mostram que somos o país latino-americano recordista em casos de depressão, o campeão mundial de ansiedade e estamos em quarto lugar no crescimento das taxas de suicídio entre os jovens da América Central e América do Sul.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.