Comportamento

Um sonho adiado

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Cada vez mais independentes, as mulheres têm adiado a maternidade por vários motivos: carreira, estudos, viagens, ou até por não ter encontrado o parceiro ideal. No entanto, a natureza não espera. A mulher nasce com uma quantidade determinada de óvulos, cerca de dois milhões, que são perdidos ao longo dos anos. Esse processo faz com que ela chegue aos 30 anos com uma quantidade reduzida. Mas mais importante que a diminuição da reserva ovariana talvez seja a piora da qualidade dos óvulos, que também ocorre com o tempo.
 
De acordo com a ginecologista e obstetra Lorena Christina Souto, esse processo leva a uma menor chance de gravidez, maiores riscos de abortamento, malformações e síndromes. É talvez por isso que hoje assistimos ao crescimento da procura por congelamento de óvulos nas clínicas de reprodução humana. Essa técnica trouxe para as mulheres a possibilidade de tentar uma gestação no futuro. "Não existe um tempo determinado para que os óvulos fiquem congelados, pois eles não envelhecem. Quando a paciente desejar engravidar, os óvulos serão descongelados, fertilizados em laboratório com o sêmen do companheiro, e os embriões formados serão transferidos para o útero", conta.
 
A ginecologista explica como o procedimento funciona.
 
A preparação para a coleta de óvulos
 
Para a retirada dos óvulos, a mulher é primeiramente submetida à estimulação ovariana por meio de medicação com hormônios. Somente após a maturação folicular, acompanhada por ultrassom transvaginal a cada dois ou três dias, e a indução da ovulação é que será marcada a coleta (a ser realizada na clínica por um médico especialista). A preparação para o procedimento é simples, sendo necessário o jejum de pelo menos oito horas em virtude da sedação. Além disso, por se tratar de ambiente estéril, é recomendado evitar perfumes, maquiagens e cremes corporais que possam conter contaminantes.
 
Passo a passo do procedimento

 
A aspiração dos óvulos é feita por meio de uma agulha guiada por ultrassom transvaginal e dura cerca de 20 minutos, a depender da quantidade de folículos. Apesar de rápido e simples, o procedimento envolve as seguintes etapas:
 
Sedação: o procedimento é realizado sob leve sedação, evitando que a paciente sinta qualquer dor ou incômodo, seja na picada da agulha ou na punção do ovário. É injetada uma dose de sedativo intravenoso, fazendo com que a paciente adormeça. Por isso, a presença do anestesista é tão importante, garantindo o monitoramento correto e a segurança.
 
Lavagem: com o auxílio de um espéculo, instrumento utilizado no exame ginecológico, lava-se a vagina e o colo uterino com soro fisiológico.
 
Punção/aspiração: uma agulha fina, acoplada ao aparelho de ultrassom, é introduzida na vagina e chega até os ovários, penetrando os folículos para a punção. Esse aparato está ligado a uma espécie de bomba, que promove a sucção, responsável por drenar o líquido folicular, bem lentamente para não danificar os óvulos contidos nele.
 
Avaliação: imediatamente após a aspiração, o material é entregue ao laboratório, onde será analisado em microscópio. É importante ressaltar que a mulher deve permanecer em repouso até o fim do efeito sedativo. Depois, os óvulos coletados são colocados em meio de cultura e incubados.
 
Cuidados posteriores e possíveis riscos

 
Algumas mulheres relatam sonolência em decorrência do efeito anestésico, sem desconsiderar os fatores psicológicos, podendo haver leve incômodo na região abdominal. Por isso, é recomendado repouso no dia da coleta. No entanto, cada caso deve ser avaliado individualmente. Em geral, no dia seguinte ao procedimento é possível retornar às atividades normais. A punção dos ovários para a coleta dos gametas é um procedimento que oferece riscos mínimos. Em menos de 1% dos casos pode ocorrer sangramento ovariano, devido à perfuração pela agulha de punção, ou seja, o ovário continua sangrando mesmo após o término do procedimento. Nesses casos, deve-se entrar em contato com o especialista, pois uma laparoscopia para conter a hemorragia pode ser necessária.
 
Recomendações importantes

 
Trata-se de um procedimento minimamente invasivo, mas, como envolve sedação, é de grande importância o acompanhamento de um anestesista, além de equipe de enfermagem desde o início até o momento da alta da paciente. Levando em consideração a delicadeza do momento e os investimentos que estão sendo feitos (seja dinheiro, tempo ou sonhos), é fundamental que a paciente seja bem assistida. Por isso, a escolha da clínica deve ser feita com atenção e cautela. Uma abordagem individualizada, desde o momento do diagnóstico à condução do tratamento, garantirá maior acolhimento e melhores resultados.

 

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